Festas de fim de ano e o impacto na saúde mental
Valéria Marinho
12/31/20252 min read


As festas de fim de ano, socialmente associadas à alegria, união e celebração, frequentemente revelam um paradoxo subjetivo: enquanto o discurso coletivo convoca à felicidade, muitos indivíduos vivenciam angústia, tristeza e exaustão psíquica. Esse período do calendário atua como um potente catalisador de conflitos inconscientes, reatualizando experiências infantis e perdas simbólicas.
O fim do ano, para muitos, representa um tempo de fechamento. Trata-se de um momento em que as pessoas são levadas a fazer um balanço de sua própria existência: o que foi conquistado, o que ficou em falta, o que se perdeu. Essa exigência de avaliação pode intensificar sentimentos de fracasso e insuficiência, sobretudo em uma cultura que valoriza, demasiadamente, a produtividade, o sucesso e a felicidade. O superego, instância psíquica marcada pela cobrança e pela culpa, tende a se manifestar de forma mais severa, produzindo sofrimento silencioso.
As reuniões familiares frequentemente reativam laços que se desfizeram ao longo do tempo, dinâmicas infantis, rivalidades fraternas e conflitos não elaborados retornam à cena, ainda que disfarçados por gestos de cordialidade. Para alguns, esse reencontro com o passado pode ser acolhedor; para outros, profundamente desorganizante.
Além disso, as festas de fim de ano nos coloca cara a cara com a falta, ausências — seja de pessoas que se foram, seja de vínculos que não se sustentaram. A tristeza pode emergir quando a perda não encontra possibilidade de serem resolvidas, permanecendo como um vazio difícil de nomear.
Com isso, cuidar da saúde mental nesse período não significa adequar-se ao ideal de felicidade imposto, mas permitir-se reconhecer e escutar os próprios afetos. A angústia, a tristeza e o cansaço não são sinais de fracasso pessoal, mas manifestações legítimas do quanto é exaustivo lidar com as regras sociais enquanto algo em você ainda precisa ser reparado.
Assim, as festas de fim de ano podem ser compreendidas não apenas como um tempo de celebração, mas também como uma oportunidade de escuta e elaboração. Ao invés de silenciar o sofrimento em nome de uma alegria obrigatória, abrir espaço para a palavra pode favorecer processos de ressignificação. Nesse sentido, a saúde mental passa menos pela busca da felicidade idealizada e mais pela possibilidade de sustentar a própria singularidade.
